Como focar nos estudos sem brigar com a distração
Para focar nos estudos, o caminho mais prático é diminuir as interrupções e estudar em blocos curtos com pausas combinadas de antemão. Não se trata só de força de vontade: pesquisas sobre interrupções mostram que elas têm um custo, e organizar o ambiente costuma ajudar mais do que tentar resistir o tempo todo. Abaixo estão os principais estudos, com seus limites, e um roteiro para aplicar hoje.
Interromper custa mais do que parece
Em 2008, Gloria Mark e colegas compararam pessoas que faziam tarefas com e sem interrupções. Quem foi interrompido concluiu as tarefas em menos tempo e sem perda de qualidade medida, mas relatou mais estresse, frustração, pressão de tempo e esforço. Os autores interpretam que as pessoas compensam a interrupção trabalhando mais rápido, e que isso tem um preço. O título do artigo resume: "more speed and stress", ou mais velocidade e mais estresse (Mark, Gudith e Klocke, 2008).
Na prática, a interrupção não faz você parar de vez. Ela faz você correr, com mais tensão. Foi um experimento de laboratório, então vale como pista, e não como lei. Ainda assim, combina com a experiência de muita gente: depois de checar uma notificação, estudar parece mais cansativo.
O celular na mesa pesa?
Em 2017, Ward e colegas sugeriram que a simples presença do próprio smartphone, mesmo desligado, reduziria a capacidade mental disponível (Ward et al., 2017). A ideia ficou conhecida como "brain drain" e gerou um debate. Em 2022, Ruiz Pardo e Minda repetiram um dos experimentos de Ward, com um desenho pré-registrado, e não encontraram diferença de desempenho entre as posições do celular nas duas tarefas de laboratório que usaram, uma de memória de trabalho e outra de controle de resposta. Os autores concluíram que a mera presença do celular talvez não seja suficiente para atrapalhar o desempenho (Ruiz Pardo e Minda, 2022).
Então o celular deixa de ser problema? Não exatamente. O que o debate mostra é que o efeito da simples presença é incerto. O que é mais seguro afirmar é que um celular aberto e à mão gera interrupções, e interrupções têm custo, como vimos acima. Tirar a tela do caminho é um hábito barato, mesmo que o efeito da mera presença seja incerto.
Muitas telas ao mesmo tempo: o que o estudo mostra
Em 2009, Ophir, Nass e Wagner compararam pessoas que usam várias mídias ao mesmo tempo, como ver um vídeo e responder mensagens, com pessoas que usam menos mídias juntas. Quem mais fazia multitarefa foi mais sensível a estímulos irrelevantes e, de forma surpreendente, foi pior em trocar de uma tarefa para outra (Ophir, Nass e Wagner, 2009).
O estudo compara grupos. Ele não prova que a multitarefa causou a diferença, porque outros fatores podem estar envolvidos. Ainda assim, ele aponta uma direção: estudar com várias abas e um chat abertos exige mais do que parece.
Pausas breves e raras mantêm a atenção
Ariga e Lleras (2011) testaram uma tarefa de vigilância, em que a pessoa precisa ficar atenta por muito tempo a um sinal raro. Quando os participantes lembravam, de vez em quando, dos números que estavam guardando, o desempenho não caía com o tempo. Quando essa lembrança só acontecia no fim, a queda aparecia. Os autores chamam esses momentos de "breaks" mentais breves e raros e propõem que eles evitam que o objetivo da tarefa "se apague" aos poucos (Ariga e Lleras, 2011).
Essa é uma tarefa simples, feita em laboratório, bem diferente de estudar matemática ou história. O resultado não garante o mesmo efeito no seu caderno. Mesmo assim, ele sugere uma ideia prática para testar: em uma sessão longa, parar de vez em quando por alguns segundos e dizer a si mesmo qual é o objetivo da tarefa pode ajudar a atenção a não se perder.
Um roteiro para hoje
- Escreva a tarefa em uma frase, por exemplo: "resolver os exercícios 1 a 6 de frações". Tarefa específica é mais fácil de começar e de terminar.
- Tire o celular da mesa. Se der, deixe em outro cômodo. Se não der, vire a tela para baixo e silencie.
- Combine um bloco curto, de 20 a 25 minutos. Blocos curtos são mais fáceis de cumprir, e não existe um número mágico de minutos de foco.
- Quando surgir uma ideia ou a vontade de checar algo, anote em um papel ao lado. Você não perde o pensamento e não abre a aba.
- Ao terminar o bloco, faça uma pausa curta e sem tela, como levantar e beber água. Ao voltar, leia a última linha que escreveu antes de continuar.
E se eu me distrair mesmo assim?
Vai acontecer, e não significa falta de caráter. Quando perceber que se distraiu, não gaste energia se culpando. Faça só três coisas: volte para a tarefa escrita no papel, releia a última linha que produziu e retome. Se a distração se repetir muito no mesmo ponto, talvez o exercício esteja difícil demais ou longo demais. Divida em partes menores. Uma lista com a tarefa de agora e a próxima também ajuda a não decidir o que fazer toda hora.
E em casa, por que é mais difícil?
Em casa, as interrupções vêm de todo lado: a família, a geladeira, a televisão, a cama por perto. O que ajuda é ter um lugar fixo para estudar, de preferência uma mesa, e avisar as pessoas do seu horário de estudo. Se o lugar é a cama, vale escolher outro canto, mesmo que pequeno. Na escola, a dica é parecida: escolha um canto do caderno e um tempo de estudo antes da prova, em vez de estudar só na véspera.
Se o estudo é de uma criança, o guia Rotina de estudos para crianças trata de horário e de ambiente em casa.
Quando procurar ajuda
Se a dificuldade para focar é constante, aparece em quase todas as situações e atrapalha a escola ou o trabalho, converse com um médico ou psicólogo. Suspeita de TDAH, por exemplo, só pode ser avaliada por um profissional de saúde. Este texto dá dicas gerais e não substitui essa avaliação.
Se você quiser combinar foco com revisão, veja também Estudo intercalado, que explica como misturar tipos de exercício em uma mesma sessão.
Fontes
- Mark, G., Gudith, D., & Klocke, U. (2008). The cost of interrupted work: More speed and stress. In Proceedings of the SIGCHI Conference on Human Factors in Computing Systems (CHI 2008), pp. 107-110. https://doi.org/10.1145/1357054.1357072
- Ophir, E., Nass, C., & Wagner, A. D. (2009). Cognitive control in media multitaskers. Proceedings of the National Academy of Sciences, 106(37), 15583-15587. https://doi.org/10.1073/pnas.0903620106
- Ariga, A., & Lleras, A. (2011). Brief and rare mental "breaks" keep you focused: Deactivation and reactivation of task goals preempt vigilance decrements. Cognition, 118(3), 439-443. https://doi.org/10.1016/j.cognition.2010.12.007
- Ward, A. F., Duke, K., Gneezy, A., & Bos, M. W. (2017). Brain drain: The mere presence of one's own smartphone reduces available cognitive capacity. Journal of the Association for Consumer Research, 2(2), 140-154. https://doi.org/10.1086/691462
- Ruiz Pardo, A. C., & Minda, J. P. (2022). Reexamining the "brain drain" effect: A replication of Ward et al. (2017). Acta Psychologica, 230, 103717. https://doi.org/10.1016/j.actpsy.2022.103717