Active recall: estudar lembrando em vez de reler
Active recall, ou recuperação ativa, é estudar tentando lembrar o conteúdo sem olhar a resposta, em vez de reler o caderno. Você fecha o material, tenta responder ou explicar, e só depois confere o que faltou. Em experimentos, lembrar ativamente costuma deixar a memória mais durável do que reler. Mas dá mais trabalho e, no momento, pode parecer mais difícil.
O que é, e é o mesmo que fazer questões?
Questões são uma forma de active recall, mas não a única. O princípio é o mesmo: tirar a informação da memória, em vez de apenas olhá-la de novo. Você pode usar perguntas de prova, resumos escritos sem consulta, explicação em voz alta para alguém ou um esquema desenhado de cabeça.
A base científica vem de Karpicke e Roediger (2008). Em experimentos com estudantes universitários que aprendiam vocabulário de outra língua, repetir o teste sobre palavras já acertadas trouxe um ganho grande em um teste feito depois de um intervalo. Reestudar, depois de já ter aprendido, não trouxe benefício nesse teste atrasado (Karpicke & Roediger, 2008).
Nos experimentos de Roediger e Karpicke (2006), os testes eram de lembrança livre, sem feedback: os estudantes recordavam o texto livremente e pronto. Conferir a resposta depois, como sugerimos abaixo, é uma prática comum de estudo, mas ela não é o que esses experimentos mediram.
Vale notar que esses experimentos usaram materiais simples, como listas de vocabulário, e tarefas de lembrança. Em matérias mais complexas, a recuperação ativa continua sendo uma boa base, mas ela pede adaptação: perguntas de compreensão e de aplicação, e não só de definição. Uma pergunta como "por que a Assembleia Nacional foi criada?" exige mais do que repetir um nome.
Por que reler não funciona tão bem
Reler dá uma sensação de familiaridade. O texto parece conhecido, e isso faz você achar que sabe. Essa sensação engana. Roediger e Karpicke (2006) compararam estudantes que releram um texto com outros que fizeram testes repetidos. Com teste após cinco minutos, quem releu se saiu melhor. Com testes após dois dias ou uma semana, quem fez os testes lembrou muito mais, enquanto quem releu se sentia mais seguro (Roediger & Karpicke, 2006).
Dunlosky e colegas (2013) classificaram a releitura como de baixa utilidade e a prática de teste como de alta utilidade para o aprendizado.
Reler continua útil para entender um assunto pela primeira vez. Para lembrar depois, ele é fraco.
Como fazer sem olhar o resumo
- Leia uma seção curta, de uns dez minutos de estudo, e feche o material.
- Escreva ou fale em voz alta o que você lembra, em dois ou três minutos.
- Abra o material e confira. Marque o que faltou ou saiu errado. Isso é uma pista do que revisar, não um julgamento sobre você.
- Refaça só o que faltou, algumas horas ou um dia depois.
- Repita na próxima revisão, com intervalo maior. Isso combina com a repetição espaçada.
Exemplos para usar hoje
Biologia: depois de ler sobre a fotossíntese, feche o caderno e responda: onde ela ocorre, o que entra e o que sai. Se travar, confira e tente de novo no fim do dia.
Inglês: depois de uma lista de expressões, diga em voz alta "I have been studying for two hours" e explique quando usar essa forma. Depois, crie uma frase nova sobre a sua rotina, sem consultar.
História: escreva de memória três consequências da Revolução Francesa. Confira e complete o que faltou.
Alemão: sem olhar, escreva três frases com "sein" nas formas "ich bin", "du bist" e "er ist". Depois confira na tabela.
Formas de praticar além das questões
Escolha a que combina com a matéria. São sugestões práticas, não protocolos de um estudo específico:
- Folha em branco: feche o material e escreva tudo o que lembrar sobre o tema, em tópicos. Depois compare com o caderno e complete de outra cor.
- Cartões: pergunta de um lado, resposta do outro. Faça perguntas que peçam explicação ("por que a água ferve a uma temperatura menor no alto da montanha?"), e não só nomes e datas.
- Explicar para alguém: conte o assunto para um colega, um familiar ou até para a parede. Onde você travar, está o ponto fraco.
- Resolver sem olhar o exemplo: em exatas, leia a resolução de um exercício, feche e refaça. Depois resolva um parecido.
Se o tema é novo e você não lembra nada, tudo bem. Tentar e não conseguir ainda é um passo útil: ao conferir, você vê exatamente o que faltou.
Quanto tempo por dia
Não existe um número comprovado. Uma proposta realista é reservar de 15 a 30 minutos por dia só para recuperar o que você estudou nos dias anteriores, e usar o resto do tempo para aprender conteúdo novo. Se o tempo é curto, vale mais testar o que importa mais para a prova do que reler tudo.
Como saber se está funcionando
Se você lembra o tema sem consultar na revisão seguinte, o método está no caminho. Se você só reconhece a resposta quando a vê no texto, a revisão precisa ser mais ativa: menos olhar, mais tentativa.
Precisa de app?
Não. Cartões de papel, com a pergunta de um lado e a resposta do outro, funcionam bem. Também dá para usar uma folha em branco. Apps ajudam a organizar datas e perguntas, e muitos são gratuitos, mas a ferramenta é secundária. O que faz diferença é tentar lembrar antes de conferir.
Erros comuns
- Olhar a resposta antes de tentar. Você perde o esforço que fixa a memória.
- Fazer tudo em uma sessão longa. Rodadas curtas costumam ser mais fáceis de manter.
- Achar que acertar uma questão hoje garante que o assunto está guardado. Vale checar de novo depois de um tempo.
Se a sua dúvida é o que misturar na mesma sessão, veja também estudo intercalado.
Fontes
- Karpicke, J. D., & Roediger, H. L. (2008). The critical importance of retrieval for learning. Science, 319(5865), 966-968. https://doi.org/10.1126/science.1152408
- Roediger, H. L., & Karpicke, J. D. (2006). Test-enhanced learning: Taking memory tests improves long-term retention. Psychological Science, 17(3), 249-255. https://doi.org/10.1111/j.1467-9280.2006.01693.x
- Dunlosky, J., Rawson, K. A., Marsh, E. J., Nathan, M. J., & Willingham, D. T. (2013). Improving students' learning with effective learning techniques: Promising directions from cognitive and educational psychology. Psychological Science in the Public Interest, 14(1), 4-58. https://doi.org/10.1177/1529100612453266