Repetição espaçada: o que é e como usar nos estudos
Repetição espaçada é estudar o mesmo conteúdo várias vezes, com intervalos crescentes entre as revisões. Em vez de concentrar tudo na véspera da prova, você volta ao assunto após um dia, depois após uma semana e depois após um mês. Em vários estudos, essa distribuição do esforço deixa a memória mais durável do que uma única sessão longa, desde que a revisão seja feita de forma ativa.
O que a pesquisa encontrou
O efeito do espaçamento é um dos achados mais repetidos da psicologia da memória. Em 2006, Cepeda e colegas reuniram 317 experimentos, publicados em 184 artigos, sobre práticas espaçadas em tarefas de memória verbal, como lembrar palavras e fatos (Cepeda et al., 2006). A conclusão mais útil para quem estuda é que o intervalo entre as revisões que gera mais retenção cresce junto com o tempo até o teste final: quanto mais longo o prazo, mais espaçadas podem ser as revisões.
Vale lembrar o limite: a maior parte desses experimentos usou material verbal simples, em laboratório. Para um conteúdo escolar inteiro, o princípio continua útil, mas os números exatos de dias não vêm desses estudos.
Em 2013, Dunlosky e colegas avaliaram dez técnicas de estudo. A prática distribuída, que é a repetição espaçada, ficou entre as de alta utilidade. Reler e grifar ficaram entre as de baixa utilidade (Dunlosky et al., 2013).
Revisar quando você já começa a esquecer costuma parecer mais difícil do que reler. Essa sensação é normal e não significa que você está indo mal. O que importa é a revisão acontecer, e acontecer de forma ativa.
Por que reler engana
Reler dá uma sensação de familiaridade: o texto parece conhecido, e você acha que sabe. Roediger e Karpicke (2006) compararam estudantes que releram um texto com outros que fizeram testes repetidos. Com teste após cinco minutos, quem releu se saiu melhor. Mas com testes após dois dias ou uma semana, quem fez os testes lembrou muito mais, embora quem releu se sentisse mais seguro (Roediger & Karpicke, 2006).
Por isso a repetição espaçada precisa de recuperação. Revisar é tentar lembrar, e não apenas olhar de novo. Karpicke e Roediger (2008) trabalharam com vocabulário de língua estrangeira. Depois que o estudante já conseguia acertar uma palavra, continuar a testá-la teve um efeito positivo grande na lembrança depois de um tempo, enquanto continuar a reestudá-la não teve efeito nessa lembrança tardia.
Como começar hoje
- Estude o assunto pela primeira vez com calma. Não tente decorar tudo de uma vez.
- Anote três datas de revisão: após um dia, após uma semana e após um mês.
- Em cada revisão, comece sem olhar o caderno. Tente responder perguntas ou explicar o tema com as suas palavras. Esse é o método descrito no artigo sobre active recall.
- Quando travar ou errar, marque o ponto. Ele mostra o que precisa de mais revisão.
- Ajuste o calendário conforme a prova. Se faltam duas semanas, use intervalos menores.
Exemplo com matéria escolar
Imagine que você vai estudar a Revolução Francesa. No primeiro dia, leia sobre as causas e faça um resumo curto. Após um dia, tente responder de memória: quais foram as principais causas? Após uma semana, faça perguntas misturadas, como "o que foi a Assembleia Nacional?" e "qual foi o papel da Bastilha?". Após um mês, revise só os pontos que você ainda não lembra.
Exemplo de idioma
Em inglês, uma expressão como "although" (embora) entra na mesma rotina. No primeiro dia, veja a palavra com uma frase de exemplo: "Although it was raining, we went out." Depois de um dia, escreva uma frase nova com ela, sem olhar. Depois de uma semana, traduza duas frases de cabeça.
No alemão, a lógica é a mesma. Se você aprende "der, die, das" com substantivos, volte a esses artigos em intervalos crescentes, e não só no dia da aula.
Intervalos: não existe número mágico
Roteiros como "um dia, uma semana, um mês" são práticos, mas não são uma regra comprovada por um estudo específico. O que a pesquisa sustenta é a ideia geral: espaçar as revisões e recuperar a informação costuma render mais do que reler. Ajuste o intervalo ao prazo que você tem.
Se você perdeu uma revisão, não recomece do zero. Faça a revisão atrasada e siga o calendário a partir dali.
Como encaixar no calendário de provas
Conte para trás a partir da data da prova. Suponha que a prova de Biologia seja daqui a três semanas e o tema seja genética:
- Dia 1: estude o conteúdo e escreva dez perguntas sobre ele, uma por cartão.
- Dia 2: responda os dez cartões sem consultar. Separe os que você errou ou hesitou.
- Dia 8: responda de novo, misturando os cartões desse tema com os de outros capítulos.
- Dia 15: repita só com os cartões que ainda dão trabalho.
- Dois ou três dias antes da prova: uma última passada rápida, sem estudar nada novo.
Isso é um modelo prático, não uma fórmula validada. O que a pesquisa de Cepeda e colegas sugere é a direção: prazo maior, intervalos maiores. Se você só tem quatro dias, comprima tudo, mas ainda assim separe as revisões em vez de fazer uma maratona.
Quanto tempo cada revisão leva
Revisões ativas e curtas são mais fáceis de manter. Como ponto de partida, tente dez a quinze minutos por tema, ajustando ao que você sente. O objetivo não é reaprender, é checar o que ficou. Se uma revisão virou uma aula inteira de novo, é sinal de que o primeiro estudo foi curto demais ou o intervalo longo demais para aquele tema. Encurte o intervalo da próxima vez.
Precisa de aplicativo?
Não é obrigatório. Um calendário e cartões de papel bastam. Uma caixa com divisórias também funciona: os cartões que você acerta vão para a divisória das revisões mais distantes, e os que você erra voltam para a das mais próximas. Existem aplicativos que agendam as revisões automaticamente, e muitos têm versão gratuita. Escolha o que você vai usar de verdade todos os dias, porque o método só funciona se a revisão acontecer.
Erros comuns
- Olhar a resposta antes de tentar lembrar. Você perde justamente o esforço que fixa a memória.
- Revisar tudo de novo em um dia só. Revisões curtas e repetidas costumam ser mais fáceis de manter.
- Achar que acertar uma vez significa que o assunto está garantido. Vale checar de novo depois de um tempo.
Se você quer misturar temas dentro da mesma sessão, veja estudo intercalado.
Fontes
- Cepeda, N. J., Pashler, H., Vul, E., Wixted, J. T., & Rohrer, D. (2006). Distributed practice in verbal recall tasks: A review and quantitative synthesis. Psychological Bulletin, 132(3), 354-380. https://doi.org/10.1037/0033-2909.132.3.354
- Dunlosky, J., Rawson, K. A., Marsh, E. J., Nathan, M. J., & Willingham, D. T. (2013). Improving students' learning with effective learning techniques: Promising directions from cognitive and educational psychology. Psychological Science in the Public Interest, 14(1), 4-58. https://doi.org/10.1177/1529100612453266
- Roediger, H. L., & Karpicke, J. D. (2006). Test-enhanced learning: Taking memory tests improves long-term retention. Psychological Science, 17(3), 249-255. https://doi.org/10.1111/j.1467-9280.2006.01693.x
- Karpicke, J. D., & Roediger, H. L. (2008). The critical importance of retrieval for learning. Science, 319(5865), 966-968. https://doi.org/10.1126/science.1152408