Como estudar para concursos com revisão espaçada
Para estudar para concursos, comece pelo edital: ele mostra o que pode ser cobrado e em que profundidade. Depois, conheça o estilo da banca, pratique com questões e revise de forma espaçada. Esse método organiza o estudo, mas não garante aprovação, porque a seleção depende de fatores que você não controla, como a concorrência e o número de vagas.
Comece pelo edital
O edital é o guia do concurso. Leia o conteúdo programático inteiro, anote as matérias e os tópicos, e transforme cada item em um bloco de estudo. Quando algo do edital não fizer sentido, a pergunta certa é: "isso está na lista de cobrança?". Se estiver, estude. Se não estiver, deixe para depois.
As datas de inscrição e de prova mudam de um concurso para outro. Este texto não traz datas. Confira sempre no site do órgão responsável pela seleção, e não em resumos de terceiros, porque uma data antiga pode fazer você perder um prazo.
Conheça a banca
A banca é a organização que escreve as questões. Cada banca tem um jeito próprio de perguntar: alguns preferem textos longos, outros, frases com pegadinhas, e alguns repetem certos temas. Estude provas anteriores da mesma banca. Observe o formato (múltipla escolha, certo ou errado, interpretação de texto), o tipo de alternativa que costuma enganar e os assuntos que voltam com frequência.
Essa análise é um método de trabalho, não um dado científico. Ela ajuda a decidir o que praticar primeiro, e vale fazer uma vez por semana.
Questões antes de resumos
Muita gente passa semanas relendo a apostila e só faz questões no fim. Mas reler dá uma sensação de segurança, e segurança não é o mesmo que capacidade de responder. Em 2017, Adesope, Trevisan e Sundararajan publicaram na Review of Educational Research uma meta-análise, que reúne vários estudos, sobre testes de prática. Em média, praticar com testes produziu mais aprendizado do que reestudar o mesmo material. A expressão "em média" importa: a vantagem varia de estudo para estudo.
Em 2006, Roediger e Karpicke publicaram na Psychological Science um estudo sobre o efeito de testes. Em experimentos com textos, fazer testes de memória depois da leitura levou a uma retenção maior em testes feitos dois dias ou uma semana depois, mesmo que quem reestudou se sentisse mais seguro. Poucos minutos depois da leitura, porém, reestudar rendeu mais. A lição prática é: lembrar sem olhar é também uma forma de aprender. Em 2013, Dunlosky e colegas revisaram dez técnicas de estudo e classificaram a prática de testes, junto com a prática distribuída, como de alta utilidade. Mais sobre isso em Active recall.
Prática: para cada bloco do edital, feche a apostila e responda de dez a quinze questões. Anote os erros com o tópico. Depois, revise só esses tópicos, em vez de reler tudo.
Revisão espaçada
Em 2008, Cepeda e colegas publicaram na Psychological Science um estudo sobre o espaçamento entre sessões de estudo. Mais de 1.350 pessoas aprenderam um conjunto de fatos e fizeram uma revisão depois de um intervalo, e um teste final veio até um ano depois. O intervalo ideal entre estudo e revisão cresceu quando o teste estava mais distante. Proporcionalmente, porém, ele diminuiu: ficou em torno de 20 a 40% do prazo para um teste em uma semana e de 5 a 10% para um teste em um ano. O estudo não foi sobre concursos, então use o resultado como direção, e não como regra exata.
Na prática, como ponto de partida, revise um tópico no dia seguinte ao estudo, depois em alguns dias, depois em uma semana e, perto da prova, outra vez. Para montar esse calendário, leia repetição espaçada. Ele funciona melhor junto com as questões, porque a revisão mostra se o tópico ainda está na memória.
Um cronograma simples
Divida a semana por matéria e reserve um dia para simulado. Um exemplo de estrutura, para você adaptar ao seu edital:
- Segunda a quinta: uma matéria por dia, com leitura curta e de dez a quinze questões.
- Sexta: revisão dos erros da semana, no formato de tópicos.
- Sábado: simulado com tempo marcado, usando questões no formato da banca.
- Domingo: descanso ou uma revisão leve.
A estrutura serve para organizar. Se algum dia não der certo, não abandone o plano: ajuste o tamanho do bloco e continue.
Simulado com tempo
O simulado treina ritmo e atenção, o que só ler a apostila não faz. Faça uma prova completa com o tempo que você terá no dia, sem consultar o material. Depois, corrija e anote os erros. Erro no simulado é uma pista: ele mostra o tópico, o tipo de questão e a pegadinha que mais atrapalha.
Errar não quer dizer que você não serve para o concurso. Quer dizer que aquele tópico precisa de mais prática. Anote e volte a ele na semana seguinte.
Estudar sozinho
Dá para estudar sozinho para concursos, e ajuda ter um registro simples do que fez e dos erros. Esse registro pode ser uma folha com a data, o tópico, o número de questões e os acertos. Ele mostra o progresso sem exigir que você se cobre além do razoável.
O que não dá para prometer
Nenhum método garante aprovação. Concorrência, nota de corte, número de vagas e o dia da prova dependem de fatores fora do seu controle. O que você controla é a leitura atenta do edital, a prática com questões da banca, a revisão espaçada, o simulado e o descanso.
Fontes
- Adesope, O. O., Trevisan, D. A., & Sundararajan, N. (2017). Rethinking the use of tests: A meta-analysis of practice testing. Review of Educational Research, 87(3), 659-701. https://doi.org/10.3102/0034654316689306
- Cepeda, N. J., Vul, E., Rohrer, D., Wixted, J. T., & Pashler, H. (2008). Spacing effects in learning: A temporal ridgeline of optimal retention. Psychological Science, 19(11), 1095-1102. https://doi.org/10.1111/j.1467-9280.2008.02209.x
- Roediger, H. L., III, & Karpicke, J. D. (2006). Test-enhanced learning: Taking memory tests improves long-term retention. Psychological Science, 17(3), 249-255. https://doi.org/10.1111/j.1467-9280.2006.01693.x
- Dunlosky, J., Rawson, K. A., Marsh, E. J., Nathan, M. J., & Willingham, D. T. (2013). Improving students' learning with effective learning techniques: Promising directions from cognitive and educational psychology. Psychological Science in the Public Interest, 14(1), 4-58. https://doi.org/10.1177/1529100612453266